Fingindo intimidade com o cavalo...
Meninas! Pé no chão! E pé na estrada! Vamos deixar a maquiagem de lado, o salto alto pra trás e jogar todas as frescuras pro alto. É hora de botar o mochilão nas costas e encarar as maravilhas e os perrengues que a estrada tem pra oferecer! E boa viagem!
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Cavalgada
Nosso último dia em Mendoza começou cedo, quando partimos para o tour mais pitoresco de todos até agora: uma cavalgada pelos áridos arredores da cidade. Digo isso, pois nenhuma de nós tinha lá muita experiência com o esporte e, de fato, nossa intimidade com cavalos se mostrou ridícula. (Para não dizer que eu não tinha experiência em cavalgadas, tive sim duas péssimas experiências: na primeira o cavalo empacou no meio da trilha e eu fui abandonada a própria sorte pelo grupo que me acompanhava; na segunda, o animal pisou no meu pé no momento em que eu ia subir e lá ficou, acidente que me custou a unha do dedão).
Fomos acompanhadas por duas americanas - tão tapadas quanto a gente, ufa! - e pelo Diego, o cavaleiro galanteador que iria nos guiar e, entre uma cantada barata e outra, nos ajudar no que fosse preciso na difícil relação grigas/cavalo. Saímos do estábulo debaixo de um sol forte e seguimos pra bem longe de qualquer sombra, árvore ou brisa, adentrando uma paisagem cada vez mais árida. O clima seco de Mendoza incomodava bastante, principalmente num dia ensolarado como aquele. Os cavalos ficaram comportados até demais - a égua da Marcinha cismava em andar tão devagar que todos os cachorros da região a seguiam felizes, latindo. Diego não se conteve e finalizou aquela cena de cinema cantando "La Cucaracha" com todo seu charme latino/canastrão. Memorável, tenho que dizer!
Tudo correu bem, mesmo quando descemos por alguns minutos para deixar os cavalos descansarem e eu quase dei uma cambalhota tentando subir novamente. O passeio não teve nada de radical como a gente esperava - e temia - mas nossa manhã cavalgando sob o sol forte deu um certo cansaço e merecíamos um tempinho pra relaxar. De volta a Mendoza, paramos na Plaza Independencia, há poucas quadras do nosso albergue, e improvisamos um delicioso piquenique com um bom vinho argentino, biscoitos e azeitonas recheadas compradas nos vinhedos dias atrás. O papo correu solto... e estar entre amigos em um momento simples como esse o transforma numa recordação pra toda vida.
Voltamos pro albergue a tempo de arrumar nossas mochilas e fazer o check-out, já que partiríamos de volta a Santiago naquela mesma noite. Ainda tínhamos tempo de sobra e aproveitamos pra jantar com Phil, nosso companheiro de muitas festas, no recomendado restaurante Quinta Norte. Como o ônibus saída tarde da noite, ainda paramos pra fazer hora no bar do albergue e tivemos a chance de nos despedir de todos os novos amigos já com o coração apertado de saudade. Será que voltaríamos a nos ver? Ou será que cada um deles, que foram tão especiais durante aqueles dias, se tornariam apenas boas lembranças de mais uma viagem?
**************
Restaurante Quinta Norte: Calle Mitre, 1206 - a comida não é de cair o queixo, mas os preços são ótimos!
Fomos acompanhadas por duas americanas - tão tapadas quanto a gente, ufa! - e pelo Diego, o cavaleiro galanteador que iria nos guiar e, entre uma cantada barata e outra, nos ajudar no que fosse preciso na difícil relação grigas/cavalo. Saímos do estábulo debaixo de um sol forte e seguimos pra bem longe de qualquer sombra, árvore ou brisa, adentrando uma paisagem cada vez mais árida. O clima seco de Mendoza incomodava bastante, principalmente num dia ensolarado como aquele. Os cavalos ficaram comportados até demais - a égua da Marcinha cismava em andar tão devagar que todos os cachorros da região a seguiam felizes, latindo. Diego não se conteve e finalizou aquela cena de cinema cantando "La Cucaracha" com todo seu charme latino/canastrão. Memorável, tenho que dizer!
Tudo correu bem, mesmo quando descemos por alguns minutos para deixar os cavalos descansarem e eu quase dei uma cambalhota tentando subir novamente. O passeio não teve nada de radical como a gente esperava - e temia - mas nossa manhã cavalgando sob o sol forte deu um certo cansaço e merecíamos um tempinho pra relaxar. De volta a Mendoza, paramos na Plaza Independencia, há poucas quadras do nosso albergue, e improvisamos um delicioso piquenique com um bom vinho argentino, biscoitos e azeitonas recheadas compradas nos vinhedos dias atrás. O papo correu solto... e estar entre amigos em um momento simples como esse o transforma numa recordação pra toda vida.
Voltamos pro albergue a tempo de arrumar nossas mochilas e fazer o check-out, já que partiríamos de volta a Santiago naquela mesma noite. Ainda tínhamos tempo de sobra e aproveitamos pra jantar com Phil, nosso companheiro de muitas festas, no recomendado restaurante Quinta Norte. Como o ônibus saída tarde da noite, ainda paramos pra fazer hora no bar do albergue e tivemos a chance de nos despedir de todos os novos amigos já com o coração apertado de saudade. Será que voltaríamos a nos ver? Ou será que cada um deles, que foram tão especiais durante aqueles dias, se tornariam apenas boas lembranças de mais uma viagem?
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Restaurante Quinta Norte: Calle Mitre, 1206 - a comida não é de cair o queixo, mas os preços são ótimos!
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Relaxando...
Faz parte de um bom albergue, além de oferecer boas instalações, também propiciar o encontro entre mochileiros de todo o mundo - o que vai desde uma boa área de convivência até festas e jantares organizados pelo staff. E o Campo Base não falha em nenhum desses aspectos. Além de garantir uma sala confortável e um bar bem convidativo, também não economiza na hora da confraternização com os hóspedes. Em poucos dias na cidade, já havíamos participado da animadíssima pizza party organizada por eles e o grupo que se formou após nossas cervejadas no bar era o suficiente para garantir a diversão sem sequer botar o pé fora do albergue. E foi exatamente isso que a gente fez na nossa última noite na cidade, depois de um dia meio morto.
As festas que Mendoza proporciona a seus visitantes (ou pelo menos a nós) são perfeitas para fazer amigos, conhecer histórias de vida, aprender sobre países ainda não visitados e encher a bagagem de ótimos "causos", mas sem dúvida podem acabar comprometendo o planejamento da viagem. Afinal, muitas tequilas numa festa não vão te deixar a pessoa mais bem disposta para percorrer a cidade de bicicleta no dia seguinte. Infelizmente, acordamos sem a menor disposição para cumprir mais essa meta da viagem e acabamos por cancelar nosso bike tour, o que foi uma pena, pois seria uma ótima forma de conhecer os arredores. Almoçamos tarde e tiramos o dia para bater perna por ali mesmo e adiantar nossas passagens de volta a Santiago. Mas o dia de ressaca permitiu que a gente passasse mais tempo à toa no albergue e, com isso, encontramos mais gente disposta a fazer uma bagunça por lá mesmo. Tiramos, nós três e mais um casal de gringos, o fim da tarde para organizar um jantar de despedida e encaramos a missão de não só fazer as compras, mas também de cozinhar pra todo mundo.
A trabalheira valeu a pena. No começo da noite, estava um grupo de mais de dez pessoas reunido numa enorme mesa se arriscando na nossa macarronada e degustando um bom vinho argentino. Após a comilança, o vinho continuou nos acompanhando, dessa vez num animado carteado entre aqueles que ainda permaneciam dispostos a curtir a noite.
O dia como o de hoje, provou mais uma vez a necessidade de deixar o roteiro aberto a esse tipo de mudança de planos. Às vezes, ficamos tão preocupados em seguir a risca o planejado, em não perder tempo, em fazer todos os passeios e ver todas as atrações, que deixamos passar momentos como esse de simplesmente curtir o dia, bater papo e fazer novos amigos.
Então, companheiro de estrada, não se sinta culpado se "perder" um dia de viagem para ficar à toa. Às vezes, quando largamos mão do planejado para deixar a viagem simplesmente acontecer é que as melhores surpresas vêm ao nosso encontro.
As festas que Mendoza proporciona a seus visitantes (ou pelo menos a nós) são perfeitas para fazer amigos, conhecer histórias de vida, aprender sobre países ainda não visitados e encher a bagagem de ótimos "causos", mas sem dúvida podem acabar comprometendo o planejamento da viagem. Afinal, muitas tequilas numa festa não vão te deixar a pessoa mais bem disposta para percorrer a cidade de bicicleta no dia seguinte. Infelizmente, acordamos sem a menor disposição para cumprir mais essa meta da viagem e acabamos por cancelar nosso bike tour, o que foi uma pena, pois seria uma ótima forma de conhecer os arredores. Almoçamos tarde e tiramos o dia para bater perna por ali mesmo e adiantar nossas passagens de volta a Santiago. Mas o dia de ressaca permitiu que a gente passasse mais tempo à toa no albergue e, com isso, encontramos mais gente disposta a fazer uma bagunça por lá mesmo. Tiramos, nós três e mais um casal de gringos, o fim da tarde para organizar um jantar de despedida e encaramos a missão de não só fazer as compras, mas também de cozinhar pra todo mundo.
A trabalheira valeu a pena. No começo da noite, estava um grupo de mais de dez pessoas reunido numa enorme mesa se arriscando na nossa macarronada e degustando um bom vinho argentino. Após a comilança, o vinho continuou nos acompanhando, dessa vez num animado carteado entre aqueles que ainda permaneciam dispostos a curtir a noite.
O dia como o de hoje, provou mais uma vez a necessidade de deixar o roteiro aberto a esse tipo de mudança de planos. Às vezes, ficamos tão preocupados em seguir a risca o planejado, em não perder tempo, em fazer todos os passeios e ver todas as atrações, que deixamos passar momentos como esse de simplesmente curtir o dia, bater papo e fazer novos amigos.
Então, companheiro de estrada, não se sinta culpado se "perder" um dia de viagem para ficar à toa. Às vezes, quando largamos mão do planejado para deixar a viagem simplesmente acontecer é que as melhores surpresas vêm ao nosso encontro.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Alta Montaña
O dia intenso de ontem ainda terminou numa cervejada no (indicadíssimo) restaurante Caro Pepe com direito a uma esticadinha no bar do nosso hostel, pra tomar a(s) saideira(s) com a simpática turma do staff e outros hóspedes.
Acordar às 7 da matina depois da peregrinação de ontem foi dureza. Eu corri pro chuveiro, agora que descobri que esse é o horário perfeito pro banho, quando a água ainda tá quente e o banheiro, limpinho. Já rolava uma certa movimentação na cozinha quando descemos, era a galera se preparando para partir rumo a Alta Montaña, assim como nós. O plano era sair de Mendoza rumo às cordilheiras percorrendo as paisagens e cidades mais características e marcantes da região, passando pela entrada do Parque do Aconcágua (a neve começou a cair tarde esse ano e o parque ainda está fechado, infelizmente) até chegar à fronteira com o Chile. Assim como no dia anterior, buscamos outros turistas pelos albergues e seguimos viagem com a van cheia de gringos animados. A companhia estava bem diversificada: franceses, holandeses, americanos, sul-africanos, chilenos, argentinos e, claro, brasileiros. Alguns estiveram nas bodegas com a gente na véspera, e já tínhamos virado amigos desde criancinha.
Paramos ainda antes de chegar à cordilheira, na pequena vila de Potrerillos, onde o frio já estava intenso e a gente pode desfrutar de um bom chocolate quente e se preparar para o frio ainda maior que vinha pela frente. As meninas estavam de tênis e preferiram alugar botas especiais pra neve. Eu estava com minha bota de trekking impermeável e resolvi arriscar ficar com elas mesmo, porém como conheço muito bem meus pontos fracos aproveitei pra comprar uma luva bem mais potente do que as minhas luvinhas de lã. Talvez tenha exagerado, porque a luva era tão grossa que era impossível fazer qualquer coisa com as mãos quando estava com elas... Mas tudo bem, dedinhos congelados também não servem pra nada!
Seguimos viagem pela estrada ainda muito árida e com pouca vegetação passando por Uspallata, um pequeno centro urbano com lojas, alojamentos e restaurantes. Me pareceu uma boa opção para pernoite pra quem pretende percorrer com calma a região. A medida que subíamos em direção a cordilheira, a paisagem ia mudando. Aos poucos, a terra batida foi dando lugar a formas mais montanhosas até que a neve apareceu e, em pouco tempo, atingimos um platô de onde se tinha uma belíssima vista panorâmica das montanhas, seus picos nevados e seus vales. A câmera fotográfica ficou frenética a partir daí e não parou mais. O visual era mesmo impressionante.
Passamos por Penitientes, a estação de esqui da região, mas havia acabado de fechar, pois a neve começava a derreter. Nosso timing em Mendoza foi péssimo: havia neve o bastante para impedir o acesso às trilhas do parque Aconcágua, mas insuficiente para manter a estação de esqui aberta. O jeito era se contentar em percorrer a região de carro mesmo. No início da tarde atingimos 2.720m quando chegamos em Puente del Inca, uma ponte natural que cruza o rio Las Cuevas e de onde afloram fontes de águas termais. O lugar já abrigou casas de banho e um luxuoso hotel, mas uma grande avalanche destruiu as construções, poupando apenas a hoje solitária igrejinha de pedra que fica no pé da montanha e deixando para trás as ruínas que ainda se encontram por lá.
O sol forte amenizava um pouco o frio seco típico daquela região muito árida, mas também fazia arder os olhos e queimava, e muito, a pele - o protetor solar era indispensável. Reforçava o protetor labial a cada cinco minutos, mas o que me incomodava mesmo era meu nariz completamente ressecado por dentro, o que me trazia lembranças muito vívidas de um certo mega show que me apresentou pela primeira vez às melecas-pedra (quem foi ao Rock in Rio sabe do que eu estou falando). Em poucos dias, meu nariz já começaria a sangrar a cada assoada, e olha que eu ainda nem tinha chegado no Atacama, o deserto mais árido do mundo.
Finalmente, chegamos no ponto de onde avistaríamos o Aconcágua. Da estrada já conseguíamos ver o gigantesco paredão do cume mais alto das Américas, a 6.962m do nível do mar. Me bateu uma decepção muito grande de não poder caminhar até lá - digo a base do cume, óbvio, não sou nenhuma alpinista - , de chegar tão perto e não cumprir o destino que eu planejei durante tanto tempo. Mas foi só eu dar os primeiros passos na neve para perceber que meu tornozelo estava longe de ficar curado e concluí que era até melhor o parque se encontrar fechado mesmo. Andamos por uns vinte minutos subindo a procura de um lugar para admirar a vista panorâmica e tirar boas fotos. Ainda tinha muita neve, mas minha bota resistiu bem e não deixou meus pés ficarem úmidos nem permitiu que eu ferrasse ainda mais meu tornozelo. As botas alugadas das meninas eram meio ridículas, mas também cumpriram seu papel.
Uns quarenta minutos depois, estávamos de volta ao carro sentindo até um pouco de calor. Após atingir o ápice do nosso passeio, a galera na van estava animadíssima. O motorista colocou um DVD nas alturas com uns sucessos breguíssimos da década de 80 e lá fomos nós cantando, rindo e descendo as montanhas no caminho de volta. Paramos para almoçar perto de Penitientes num restaurante bastante simples com comida mais simples ainda - estilo bandejão - mas pela fome da galera mais parecia um banquete de rei.
Chegamos em Mendoza no fim da tarde e, já sabendo da programação noturna, demos uma descansada no quarto para recuperar as energias depois do nosso longo dia. Na hora do banho não teve jeito, tivemos que encarar o banheiro naquele estado já bem, como posso dizer... usado! Mas pra mim, não tem nada pior num banheiro comunitário do que ter que trocar de roupa depois do banho dentro do box molhado. É uma verdadeira ginástica vestir a calça sem molhar a barra enquanto segura a blusa com uma mão, a cortina com a outra e procura não encostar a bunda na parede suja do box. Mas tudo bem, são detalhes que vão embora quando se está a caminho da Pizza Party organizada pelo staff para reunir toda a galera dos albergues lá no Mendoza Inn. Realmente estavam todos lá, turistas do mundo inteiro sentados numa mesa compriiiida com suas cervejas geladas, jogando conversa fora, fazendo novas amizades, a espera das pizzas e da prometida tequila. É, acho que vai ser uma longa noite.
**************
Restaurante Caro Pepe - Av. Las Heras, 510
Acordar às 7 da matina depois da peregrinação de ontem foi dureza. Eu corri pro chuveiro, agora que descobri que esse é o horário perfeito pro banho, quando a água ainda tá quente e o banheiro, limpinho. Já rolava uma certa movimentação na cozinha quando descemos, era a galera se preparando para partir rumo a Alta Montaña, assim como nós. O plano era sair de Mendoza rumo às cordilheiras percorrendo as paisagens e cidades mais características e marcantes da região, passando pela entrada do Parque do Aconcágua (a neve começou a cair tarde esse ano e o parque ainda está fechado, infelizmente) até chegar à fronteira com o Chile. Assim como no dia anterior, buscamos outros turistas pelos albergues e seguimos viagem com a van cheia de gringos animados. A companhia estava bem diversificada: franceses, holandeses, americanos, sul-africanos, chilenos, argentinos e, claro, brasileiros. Alguns estiveram nas bodegas com a gente na véspera, e já tínhamos virado amigos desde criancinha.
Paramos ainda antes de chegar à cordilheira, na pequena vila de Potrerillos, onde o frio já estava intenso e a gente pode desfrutar de um bom chocolate quente e se preparar para o frio ainda maior que vinha pela frente. As meninas estavam de tênis e preferiram alugar botas especiais pra neve. Eu estava com minha bota de trekking impermeável e resolvi arriscar ficar com elas mesmo, porém como conheço muito bem meus pontos fracos aproveitei pra comprar uma luva bem mais potente do que as minhas luvinhas de lã. Talvez tenha exagerado, porque a luva era tão grossa que era impossível fazer qualquer coisa com as mãos quando estava com elas... Mas tudo bem, dedinhos congelados também não servem pra nada!
Seguimos viagem pela estrada ainda muito árida e com pouca vegetação passando por Uspallata, um pequeno centro urbano com lojas, alojamentos e restaurantes. Me pareceu uma boa opção para pernoite pra quem pretende percorrer com calma a região. A medida que subíamos em direção a cordilheira, a paisagem ia mudando. Aos poucos, a terra batida foi dando lugar a formas mais montanhosas até que a neve apareceu e, em pouco tempo, atingimos um platô de onde se tinha uma belíssima vista panorâmica das montanhas, seus picos nevados e seus vales. A câmera fotográfica ficou frenética a partir daí e não parou mais. O visual era mesmo impressionante.
Passamos por Penitientes, a estação de esqui da região, mas havia acabado de fechar, pois a neve começava a derreter. Nosso timing em Mendoza foi péssimo: havia neve o bastante para impedir o acesso às trilhas do parque Aconcágua, mas insuficiente para manter a estação de esqui aberta. O jeito era se contentar em percorrer a região de carro mesmo. No início da tarde atingimos 2.720m quando chegamos em Puente del Inca, uma ponte natural que cruza o rio Las Cuevas e de onde afloram fontes de águas termais. O lugar já abrigou casas de banho e um luxuoso hotel, mas uma grande avalanche destruiu as construções, poupando apenas a hoje solitária igrejinha de pedra que fica no pé da montanha e deixando para trás as ruínas que ainda se encontram por lá.
O sol forte amenizava um pouco o frio seco típico daquela região muito árida, mas também fazia arder os olhos e queimava, e muito, a pele - o protetor solar era indispensável. Reforçava o protetor labial a cada cinco minutos, mas o que me incomodava mesmo era meu nariz completamente ressecado por dentro, o que me trazia lembranças muito vívidas de um certo mega show que me apresentou pela primeira vez às melecas-pedra (quem foi ao Rock in Rio sabe do que eu estou falando). Em poucos dias, meu nariz já começaria a sangrar a cada assoada, e olha que eu ainda nem tinha chegado no Atacama, o deserto mais árido do mundo.
Finalmente, chegamos no ponto de onde avistaríamos o Aconcágua. Da estrada já conseguíamos ver o gigantesco paredão do cume mais alto das Américas, a 6.962m do nível do mar. Me bateu uma decepção muito grande de não poder caminhar até lá - digo a base do cume, óbvio, não sou nenhuma alpinista - , de chegar tão perto e não cumprir o destino que eu planejei durante tanto tempo. Mas foi só eu dar os primeiros passos na neve para perceber que meu tornozelo estava longe de ficar curado e concluí que era até melhor o parque se encontrar fechado mesmo. Andamos por uns vinte minutos subindo a procura de um lugar para admirar a vista panorâmica e tirar boas fotos. Ainda tinha muita neve, mas minha bota resistiu bem e não deixou meus pés ficarem úmidos nem permitiu que eu ferrasse ainda mais meu tornozelo. As botas alugadas das meninas eram meio ridículas, mas também cumpriram seu papel.
Uns quarenta minutos depois, estávamos de volta ao carro sentindo até um pouco de calor. Após atingir o ápice do nosso passeio, a galera na van estava animadíssima. O motorista colocou um DVD nas alturas com uns sucessos breguíssimos da década de 80 e lá fomos nós cantando, rindo e descendo as montanhas no caminho de volta. Paramos para almoçar perto de Penitientes num restaurante bastante simples com comida mais simples ainda - estilo bandejão - mas pela fome da galera mais parecia um banquete de rei.
Chegamos em Mendoza no fim da tarde e, já sabendo da programação noturna, demos uma descansada no quarto para recuperar as energias depois do nosso longo dia. Na hora do banho não teve jeito, tivemos que encarar o banheiro naquele estado já bem, como posso dizer... usado! Mas pra mim, não tem nada pior num banheiro comunitário do que ter que trocar de roupa depois do banho dentro do box molhado. É uma verdadeira ginástica vestir a calça sem molhar a barra enquanto segura a blusa com uma mão, a cortina com a outra e procura não encostar a bunda na parede suja do box. Mas tudo bem, são detalhes que vão embora quando se está a caminho da Pizza Party organizada pelo staff para reunir toda a galera dos albergues lá no Mendoza Inn. Realmente estavam todos lá, turistas do mundo inteiro sentados numa mesa compriiiida com suas cervejas geladas, jogando conversa fora, fazendo novas amizades, a espera das pizzas e da prometida tequila. É, acho que vai ser uma longa noite.
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Restaurante Caro Pepe - Av. Las Heras, 510
domingo, 17 de janeiro de 2010
Bodegas... e muito vinho!
Engana-se muito quem pensa que o turismo em Mendoza gira apenas em torno de vinhedos e boa comida. Os arredores da cidade com suas montanhas, rios e cânions oferecem uma infinidade de opções para a prática de turismo de aventura como rafting, trekking, rapel, cavalgadas, etc. Eu estava disposta a ignorar aquele probleminha no meu tornozelo, já mencionado aqui, e começava a pensar em encarar o trekking de quatro dias até a base do Aconcágua. Infelizmente (ou felizmente) nem precisei tomar essa decisão já que descobrimos que a temporada no Parque do Aconcágua começaria apenas duas semanas após a nossa despedida da cidade. Fiquei bastante frustrada, visto que esse era meu maior motivo de ter desviado nosso percurso até lá. Passada a decepção, resolvi aproveitar as opções que tínhamos pela frente, a começar por um passeio pelas bodegas mendocinas durante um dia inteiro, com direito a degustação de vinho e almoço.
Partimos numa van do Campo Base acompanhadas de gringos dos quatro cantos do planeta rumo ao primeiro vinhedo. A manguaça começou cedo com uma breve degustação de vinhos orgânicos na Bodega Cecchin, a pouco mais de uma hora do nosso café da manhã. Abrimos o tour com uma longuíssima aula teórica sobre tipos de uva e as muitas etapas do processo de produção de um bom vinho. A guia que foi posta a nossa disposição deixava muito a desejar no inglês e dava pra perceber que ninguém ali tinha idéia se ela estava falando sobre uvas ou discutindo filosofia. Mal sabíamos que até o fim do dia nós mesmos poderíamos estar comandando um tour daqueles.
Depois de uma breve degustação (mais breve do que a maioria de nós esperava depois da história sem fim sobre vinhos orgânicos), voltamos pra van e partimos pra onde seria servido nosso almoço. Então, nossa sede de vinho foi finalmente saciada. Chegamos num amplo restaurante onde uma enorme mesa já esperava pelo nosso grupo. Não havia mais ninguém por lá, então não sei bem se o serviço exclusivo foi intencional ou se foi puro tédio do garçom mesmo. Só sei que desde que nos sentamos à mesa, nenhuma taça permaneceu vazia por mais de dois minutos. Em menos de uma hora de confraternização, todos nós já tínhamos virado amigos de infância. Nosso querido garçom servia parrillada (pra mim, massa) e vinho incansavelmente. Acho que alguém deve ter dado uma boa gorjeta pra ele antes sem que ninguém visse e dito "amigão, derruba eles!". Só sei que não restou um só turista "puro" depois daquela orgia gastronômica e assim, felizes e muitíssimos satisfeitos, partimos pra próxima bodega: Alta Vista.
Entendo que a escolha do trajeto provavelmente se deu por quesitos geográficos, mas ainda acho que teria sido mais prudente ter deixado a chatapádedéu Cecchin e sua incompreensível guia pra depois do almoço, quando já estávamos achando tudo a maior diversão do mundo. A visita a Alta Vista foi ótima, com bons guias, bom inglês, boa explicação e muito bom humor da nossa parte. Mais algumas taças de degustação e seguimos nosso tour, aos trancos e barrancos, até a última bodega: Família Zuccardi, de longe a melhor de todas. Pra começar, fomos recebidos com uma rápida (e de-li-ci-o-sa) prova de espumantes. Quer deixar um grupo de turistas bebuns mais felizes ainda? Dê espumante a eles. Vão se sentir chiques, especiais e vão ter a maior boa vontade em escutar pela terceira vez como se dá a fermentação da uva. Pura estratégia, gente, esse povo recebe gringo doidão há anos, eles sabem o que fazem. Deu super certo, e seguimos pelos lindíssimos vinhedos (ainda secos, infelizmente) e pelas luxuosíssimas dependências da bogega, com seus amplos galpões e barris enormes. Lá mesmo fizemos a degustação, de barril em barril, de vinhos de todos os tipos, idades, aromas, sabores... honestamente, acho que eu nunca tomei tanto vinho em um só dia em toda a minha vida. Não só por isso a última parada foi a melhor. A Zuccardi preza pelo excelente atendimento, pela simpatia (e bom preparo) dos guias e pela beleza do lugar. Se você, por algum motivo, tiver que escolher apenas uma bodega para conhecer quando estiver em Mendoza, essa é sem dúvida a melhor escolha. Mas eu recomendo mesmo tirar o dia para se acabar por todas elas, vale a pena!
Não satisfeito em transportar uma penca de turistas animados além da conta, o motorista ainda parou em uma pequena fazenda que produzia artesanalmente azeite, pastas, chocolate e... licores. Meu Deus! Foi o tiro de misericórdia servir absinto àquela gente. Eu me contive com as azeitonas recheadas de provolone que estavam deliciosas e deixei os drinks para as minhas companheiras de viagem, que àquela altura estavam fazendo uma viagem sem volta rumo à ressaca do dia seguinte.
*********
Bodega Cecchin - http://www.bodegacecchin.com.ar/
Alta Vista - http://www.altavistawines.com/
Familia Zuccardi - http://www.familiazuccardi.com/
Partimos numa van do Campo Base acompanhadas de gringos dos quatro cantos do planeta rumo ao primeiro vinhedo. A manguaça começou cedo com uma breve degustação de vinhos orgânicos na Bodega Cecchin, a pouco mais de uma hora do nosso café da manhã. Abrimos o tour com uma longuíssima aula teórica sobre tipos de uva e as muitas etapas do processo de produção de um bom vinho. A guia que foi posta a nossa disposição deixava muito a desejar no inglês e dava pra perceber que ninguém ali tinha idéia se ela estava falando sobre uvas ou discutindo filosofia. Mal sabíamos que até o fim do dia nós mesmos poderíamos estar comandando um tour daqueles.
Depois de uma breve degustação (mais breve do que a maioria de nós esperava depois da história sem fim sobre vinhos orgânicos), voltamos pra van e partimos pra onde seria servido nosso almoço. Então, nossa sede de vinho foi finalmente saciada. Chegamos num amplo restaurante onde uma enorme mesa já esperava pelo nosso grupo. Não havia mais ninguém por lá, então não sei bem se o serviço exclusivo foi intencional ou se foi puro tédio do garçom mesmo. Só sei que desde que nos sentamos à mesa, nenhuma taça permaneceu vazia por mais de dois minutos. Em menos de uma hora de confraternização, todos nós já tínhamos virado amigos de infância. Nosso querido garçom servia parrillada (pra mim, massa) e vinho incansavelmente. Acho que alguém deve ter dado uma boa gorjeta pra ele antes sem que ninguém visse e dito "amigão, derruba eles!". Só sei que não restou um só turista "puro" depois daquela orgia gastronômica e assim, felizes e muitíssimos satisfeitos, partimos pra próxima bodega: Alta Vista.
Entendo que a escolha do trajeto provavelmente se deu por quesitos geográficos, mas ainda acho que teria sido mais prudente ter deixado a chatapádedéu Cecchin e sua incompreensível guia pra depois do almoço, quando já estávamos achando tudo a maior diversão do mundo. A visita a Alta Vista foi ótima, com bons guias, bom inglês, boa explicação e muito bom humor da nossa parte. Mais algumas taças de degustação e seguimos nosso tour, aos trancos e barrancos, até a última bodega: Família Zuccardi, de longe a melhor de todas. Pra começar, fomos recebidos com uma rápida (e de-li-ci-o-sa) prova de espumantes. Quer deixar um grupo de turistas bebuns mais felizes ainda? Dê espumante a eles. Vão se sentir chiques, especiais e vão ter a maior boa vontade em escutar pela terceira vez como se dá a fermentação da uva. Pura estratégia, gente, esse povo recebe gringo doidão há anos, eles sabem o que fazem. Deu super certo, e seguimos pelos lindíssimos vinhedos (ainda secos, infelizmente) e pelas luxuosíssimas dependências da bogega, com seus amplos galpões e barris enormes. Lá mesmo fizemos a degustação, de barril em barril, de vinhos de todos os tipos, idades, aromas, sabores... honestamente, acho que eu nunca tomei tanto vinho em um só dia em toda a minha vida. Não só por isso a última parada foi a melhor. A Zuccardi preza pelo excelente atendimento, pela simpatia (e bom preparo) dos guias e pela beleza do lugar. Se você, por algum motivo, tiver que escolher apenas uma bodega para conhecer quando estiver em Mendoza, essa é sem dúvida a melhor escolha. Mas eu recomendo mesmo tirar o dia para se acabar por todas elas, vale a pena!
Não satisfeito em transportar uma penca de turistas animados além da conta, o motorista ainda parou em uma pequena fazenda que produzia artesanalmente azeite, pastas, chocolate e... licores. Meu Deus! Foi o tiro de misericórdia servir absinto àquela gente. Eu me contive com as azeitonas recheadas de provolone que estavam deliciosas e deixei os drinks para as minhas companheiras de viagem, que àquela altura estavam fazendo uma viagem sem volta rumo à ressaca do dia seguinte.
*********
Bodega Cecchin - http://www.bodegacecchin.com.ar/
Alta Vista - http://www.altavistawines.com/
Familia Zuccardi - http://www.familiazuccardi.com/
sábado, 16 de janeiro de 2010
Mendoza
Nosso objetivo final da viagem sempre foi o deserto do Atacama. Mas é aquela velha história: já que estamos por aqui, por que não dar uma passadinha ali, conhecer esse canto aqui... e assim a viagem vai deliciosamente se esticando!
Foi assim que incluímos Mendoza no nosso roteiro. Já que estávamos em Santiago, por que não...?
A previsão de viagem era de aproximadamente seis horas, mas tudo dependia do tempo de espera na fronteira com a Argentina. A travessia prometia muito mais do que simplesmente se deslocar entre dois países. A estrada que corta as cordilheiras é conhecida por proporcionar um espetáculo aos olhos do viajante com seus picos nevados e lagos esmeralda e por isso optamos por sair logo cedo ao invés de economizar tempo e dinheiro viajando de madrugada. De fato, foi difícil tirar um cochilo sequer ao longo do trajeto, uma vez que cada curva (todas perigosíssimas por sinal) revelava uma nova paisagem ainda mais bonita que a anterior. Infelizmente, nenhuma de nós três sentia-se segura o bastante para encarar aquela travessia de carro, mas eu pessoalmente recomendo. Dá vontade de parar a cada minuto para fotografar ou simplesmente admirar aquele visual impressionante.
A parada na fronteira com a Argentina não incomodou pela demora na alfândega. O problema maior era o frio insuportável das montanhas ao qual os turistas eram submetidos sem compaixão alguma. Em um determinado momento eu me perguntei o que tinha feito de tão ruim aos argentinos para eles me tratarem daquele jeito. Depois de esperar na fila, mostrar passaporte, abrir mala, levar umas cantadas do agente argentino (sim, os agentes argentinos cantam as turistas), tomar um café escaldante, enfim voltamos pro ônibus e seguimos viagem. Ainda restavam algumas horas até Mendoza, tempo suficiente para assistir a um filminho, escutar uma música e tirar um bom cochilo!
Senta que lá vem o causo...
O filme em questão, sobre duas turistas que são sequestradas para serem vendidas como prostitutas - uma temática super conveniente para a ocasião, né?! - causou comoção no ônibus! Chama-se "Taken", assistam, meninas, vão se sentir super seguras pra viajar sozinhas por aí.... Mesmo com um som péssimo e com uma imagem pior ainda, todo mundo se envolveu com o drama das meninas, gemendo e gritando nos momentos de tensão - inclusive a gente! Só sei que "taken" virou nosso código de emergência para o resto da viagem. Mão boba, olhares esquisitos, homens mal-intencionados? Era só mandar "taken" que logo a mensagem era captada e o indivíduo enxotado pro seu canto de onde não deveria ter saído. Recomendo a técnica. Infalível.
Voltando...
O albergue que escolhemos é o Campo Base, que tem a vantagem de ter sua própria agência de viagens e organizar tours e expedições pelos arredores de Mendoza para seus hóspedes. Logo, nada de velhinhos ou casais em lua-de-mel, só mesmo a galera dos hostels (alem do nosso, existem mais dois albergues no grupo: International Mendoza e Mendoza Inn). A primeira coisa que fizemos assim que nos instalamos no quarto (um capítulo à parte, o quarto) foi escolher e fechar todos os passeios dos dias seguintes e tentar descolar um desconto camarada. Eram muitas as opções e algumas um pouco caras, então optamos por seguir aquelas que já estavam no nosso roteiro com algumas exceções, como la cabalgata e um tour de bike.
Tudo resolvido, partimos pra comer algo, já que estávamos há anos luz da nossa última refeição no Chile, mas a siesta transformou nossa missão numa jornada sem fim. Percorremos as ruas de Mendoza sem achar um único restaurante, bar, boteco, café, nada aberto. Isso na cabeça de um carioca - que toma chopp no Jobi às 10 da manhã e come uma pizza na Guanabara às 4 da madrugada - é impensável e extremamente irritante. Vagamos por quase uma hora e adentramos cegamente o primeiro restaurante que abriu as portas, mas tivemos sorte! Além de muito bom, era barato e oferecia ótimo serviço, coisa rara entre os garçons argentinos... Aproveitamos a chance de degustar bons vinhos por ótimo preço e pedimos logo dois mais uma deliciosa massa e pronto, energias renovadas.
De volta ao albergue, encaramos o banho num banheiro nada convidativo, mas que garantia água caliente e um pouquinho de privacidade entre tanta gente. O Campo Base é um hostel que tem lá seus defeitos, os quartos são apertados, o banheiro não é dos melhores, mas proporciona uma excelente estadia graças ao staff que é muito receptivo, festivo e bem preparado. Sem falar no bar e na recepção onde ficam reunidos turistas de todo o mundo num clima de total confraternização. Ao longo dos nossos cinco dias na Argentina, fizemos grandes amizades e voltamos pro Chile com a certeza de que nossa "escapadinha" pro país vizinho foi uma excelente idéia.
***********
TurBus (travessia Chile - Argentina) - www.turbus.cl/
Campo Base Hostel - http://www.hostelcampobase.com.ar/
Foi assim que incluímos Mendoza no nosso roteiro. Já que estávamos em Santiago, por que não...?
A previsão de viagem era de aproximadamente seis horas, mas tudo dependia do tempo de espera na fronteira com a Argentina. A travessia prometia muito mais do que simplesmente se deslocar entre dois países. A estrada que corta as cordilheiras é conhecida por proporcionar um espetáculo aos olhos do viajante com seus picos nevados e lagos esmeralda e por isso optamos por sair logo cedo ao invés de economizar tempo e dinheiro viajando de madrugada. De fato, foi difícil tirar um cochilo sequer ao longo do trajeto, uma vez que cada curva (todas perigosíssimas por sinal) revelava uma nova paisagem ainda mais bonita que a anterior. Infelizmente, nenhuma de nós três sentia-se segura o bastante para encarar aquela travessia de carro, mas eu pessoalmente recomendo. Dá vontade de parar a cada minuto para fotografar ou simplesmente admirar aquele visual impressionante.
A parada na fronteira com a Argentina não incomodou pela demora na alfândega. O problema maior era o frio insuportável das montanhas ao qual os turistas eram submetidos sem compaixão alguma. Em um determinado momento eu me perguntei o que tinha feito de tão ruim aos argentinos para eles me tratarem daquele jeito. Depois de esperar na fila, mostrar passaporte, abrir mala, levar umas cantadas do agente argentino (sim, os agentes argentinos cantam as turistas), tomar um café escaldante, enfim voltamos pro ônibus e seguimos viagem. Ainda restavam algumas horas até Mendoza, tempo suficiente para assistir a um filminho, escutar uma música e tirar um bom cochilo!
Senta que lá vem o causo...
O filme em questão, sobre duas turistas que são sequestradas para serem vendidas como prostitutas - uma temática super conveniente para a ocasião, né?! - causou comoção no ônibus! Chama-se "Taken", assistam, meninas, vão se sentir super seguras pra viajar sozinhas por aí.... Mesmo com um som péssimo e com uma imagem pior ainda, todo mundo se envolveu com o drama das meninas, gemendo e gritando nos momentos de tensão - inclusive a gente! Só sei que "taken" virou nosso código de emergência para o resto da viagem. Mão boba, olhares esquisitos, homens mal-intencionados? Era só mandar "taken" que logo a mensagem era captada e o indivíduo enxotado pro seu canto de onde não deveria ter saído. Recomendo a técnica. Infalível.
Voltando...
O albergue que escolhemos é o Campo Base, que tem a vantagem de ter sua própria agência de viagens e organizar tours e expedições pelos arredores de Mendoza para seus hóspedes. Logo, nada de velhinhos ou casais em lua-de-mel, só mesmo a galera dos hostels (alem do nosso, existem mais dois albergues no grupo: International Mendoza e Mendoza Inn). A primeira coisa que fizemos assim que nos instalamos no quarto (um capítulo à parte, o quarto) foi escolher e fechar todos os passeios dos dias seguintes e tentar descolar um desconto camarada. Eram muitas as opções e algumas um pouco caras, então optamos por seguir aquelas que já estavam no nosso roteiro com algumas exceções, como la cabalgata e um tour de bike.
Tudo resolvido, partimos pra comer algo, já que estávamos há anos luz da nossa última refeição no Chile, mas a siesta transformou nossa missão numa jornada sem fim. Percorremos as ruas de Mendoza sem achar um único restaurante, bar, boteco, café, nada aberto. Isso na cabeça de um carioca - que toma chopp no Jobi às 10 da manhã e come uma pizza na Guanabara às 4 da madrugada - é impensável e extremamente irritante. Vagamos por quase uma hora e adentramos cegamente o primeiro restaurante que abriu as portas, mas tivemos sorte! Além de muito bom, era barato e oferecia ótimo serviço, coisa rara entre os garçons argentinos... Aproveitamos a chance de degustar bons vinhos por ótimo preço e pedimos logo dois mais uma deliciosa massa e pronto, energias renovadas.
De volta ao albergue, encaramos o banho num banheiro nada convidativo, mas que garantia água caliente e um pouquinho de privacidade entre tanta gente. O Campo Base é um hostel que tem lá seus defeitos, os quartos são apertados, o banheiro não é dos melhores, mas proporciona uma excelente estadia graças ao staff que é muito receptivo, festivo e bem preparado. Sem falar no bar e na recepção onde ficam reunidos turistas de todo o mundo num clima de total confraternização. Ao longo dos nossos cinco dias na Argentina, fizemos grandes amizades e voltamos pro Chile com a certeza de que nossa "escapadinha" pro país vizinho foi uma excelente idéia.
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TurBus (travessia Chile - Argentina) - www.turbus.cl/
Campo Base Hostel - http://www.hostelcampobase.com.ar/
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