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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

San Pedro de Atacama

Sabe aquele filme em que o James Belushi fica preso num mesmo dia - o dia da Marmota - e tudo acontece exatamente igual over and over again? Pois nosso dia começou um pouco assim, as três fazendo rigorosamente o que haviam feito na véspera. Arrumamos as malas, pedimos um taxi, fomos até o aeroporto, fila do check in, alô pra moça do guichê e... embarcamos. Ufa! Agora sim, rumo a San Pedro de Atacama.


Nosso vôo até Calama saía no começo da tarde, então pegamos o almoço no ar. Eu fui abençoada com uma cólica digna de pré-adolescente e só fiz ficar largada na poltrona sonhando com meu Buscopan no compartimento de cargas, enquanto as meninas degustavam o menu a bordo. Fora os problemas femininos que me acometeram, as duas horas e meia de vôo foram bem tranqüilas... até a hora de pousar. Porque a chegada em Calama, minha gente, é com emoção: você não vê a pista do aeroporto até o momento do trem de pouso encostar o chão e até o último minuto jura que o avião vai pousar ali mesmo, no chão de terra do deserto! Porém, o desembarque do avião numa pista de aeroporto em meio a completa vastidão do deserto compensou qualquer frio na barriga. A paisagem impressionava e sequer tínhamos chegado a San Pedro.

Ali mesmo no aeroporto corremos para garantir nosso lugar numa das vans que fazem o percurso Calama - San Pedro e por pouco mais de uma hora cruzamos aquela terra inóspita na companhia de um belíssimo por-do-sol que, em pleno deserto, havia se transformado num espetáculo de cores. Já dava pra sentir os efeitos da baixíssima umidade do ar e da altitude - San Pedro fica a mais de 2400m e pelo caminho chegamos a mais de 3000m. A van nos deixou na porta do Hotel Don Raul, que fica na rua principal, a Carácoles. Por lá, o banheiro privativo e as camas individuais nos faziam concluir que o café da manhã merecia uma atenção especial no dia seguinte.

Aproveitamos o começo da noite para procurar um albergue mais em conta que o Don Raul e para reservar os tours que feríamos nos próximos dias. A idéia era fechar o maior número de passeios numa mesma agência para conseguir um bom desconto, exatamente como havíamos feito em Mendoza. E deu certo. Na agência Pachamama pagamos 55000 o pacote com todos os tours que tínhamos escolhido fazer: Lagunas Altiplanicas e Salar, Laguna Cejar e Ojos del Salar, Geisers del Tatio, Vale de la Muerte e Vale de la Luna. E ainda corremos pra comprar, em outra agência, o tour astronômico - pra mim a grande promessa pro dia seguinte! Pra concluir nossas obrigações e poder finalmente sentar pra jantar, faltava apenas descobrir onde dormiríamos na noite seguinte. E pelo jeito estávamos com sorte: exatamente em frente ao nosso hotel ficava o hostal Puritama, um excelente albergue com quartos confortáveis, muitos banheiros (compartilhados, porém individuais) e hóspedes muito simpáticos (leia-se: gatos pra caramba)!

Assim que garantimos nossa reserva no Puritama, fomos dar uma volta na cidade que se resume basicamente a rua Carácoles e suas estreitas transversais. O movimento nos restaurantes já era grande e deu pra perceber que a vida noturna por lá não ultrapassa as duas horas da manhã com muita boa vontade. Sentamos para comer uma pizza e pelo cardápio vimos que o padrão ali era outro e não ia rolar de fazer grandes refeições sem estourar o orçamento da viagem. Por sorte, nos dias que se seguiram, descobrimos as deliciosas - e gigantescas - empanadas, que eram vendidas a cada esquina por uma merreca. Também pesquisamos o melhor lugar para comprar água, fazer ligações, acessar internet, comprar artesanato e por aí vai... os preços em San Pedro merecem uma olhada mais atenciosa se você pretende gastar pouco!

Dormimos cedo no nosso confortável quartinho do Don Raul já em clima de despedida do conforto. A partir do dia seguinte voltaríamos a dividir banheiro, dormir em beliche e teríamos que nos contentar com um parco café da manhã. Assim, o plano era acordar ainda mais cedo que o previsto para aproveitar bem o café do nosso hotel e tirar a barriga da miséria. Boa noite.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Atacama - 1a. tentativa

Finalmente chegou o grande dia de partir pro Deserto do Atacama. Santiago já tinha dado o que tinha que dar e era hora de seguir viagem. Ainda tínhamos a manhã livre, pois nosso vôo saía apenas no começo da tarde, então aproveitamos para tentar conhecer La Moneda, sede da Presidência da República que foi bombardeada durante o golpe de Estado e onde morreu o então presidente Salvador Allende. Tínhamos a informação no nosso guia de viagens de que o palácio ficava aberto ao público durante um período da manhã, mas demos com a cara na porta. Nada de visitas, e tivemos que nos contentar com a troca da guarda e meia dúzia de fotos.


De metrô, corremos de volta ao albergue, check out feito, mochilas prontas e toca pro aeroporto. Tudo correndo maravilhosamente bem, até a fila do check in estava minúscula. Nada podia dar errado. "Señora, su vuelo no es hoy" me disse a moça do guichê, com cara de pena. "Como?" eu entendi errado, com certeza! "Su vuelo es mañana, señora". Olhei pra trás e vi nos olhos das minhas companheiras de viagem - boquiabertas - que eu tinha entendido direitinho. Rimos. Rimos muito! O que mais a gente podia fazer numa hora dessas? Tinha havido alguma confusão com o calendário na hora de comprar os bilhetes, pois acreditávamos que tínhamos pedido para um dia e a mulher vendeu pro dia seguinte! Na confusão da chegada, ninguém conferiu as passagens e lá estávamos nós, três idiotas empacando a fila do check in tentando imaginar o que fazer. De nada adiantou chamar todos os funcionários da companhia aérea pra tentar colocar a gente no vôo do dia. O jeito era voltar pro albergue. Ai, meu Deus, que vergonha, voltar pro albergue e dizer que queríamos ficar mais uma noite porque erramos o dia de embarque. Enfim... encaramos o papel de malucas com bom humor e viramos o assunto do dia por lá. E eu nem precisei contar que já tinha passado por isso em outra viagem. Mas isso já é outra história.


Àquela altura o dia já parecia perdido, mas o tempo resolveu ajudar e, finalmente, conseguimos fazer o que até então estava sendo impossível: simplesmente vagar pela cidade, sem rumo certo nem hora pra voltar. Andamos até Providencia, bairro com grande concentração de bares e restaurantes, como o Liguria. Depois da nossa andança (e da nossa novela no aeroporto), o estômago já pedia uma pit-stop, e foi lá mesmo que a gente parou. Meio bar, meio restaurante, o Liguria chama a atenção pela decoração, pelo ar tradicionalíssimo e pela simpatia dos garçons. Sem dúvida, vale a visita, nem que seja pra tomar uma cervejinha no fim do dia. Nossa caminhada de volta ao hostel foi abençoada por um belíssimo pôr-do-sol, agora sim digno de uma despedida da cidade.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Próximo destino

Falei tanto em sonhar e partir e até agora não apresentei nosso novo destino. Digo nosso, porque, mais uma vez, não estarei sozinha nessa nova empreitada. Da expedição original a Bolívia e Peru restamos apenas Iraman e eu, mas ganhamos uma nova companheira de aventuras: nossa velha amiga Marcia. Faltando apenas quinze dias para botarmos o pé na estrada juntas novamente, temos a certeza de que outra grande aventura nos espera: Santiago, Mendoza e, por fim, San Pedro do Atacama. Se quando partimos há quatro anos, Machu Picchu era nosso maior objetivo e grande sonho de consumo, dessa vez, o deserto do Atacama é a verdadeira estrela da viagem. Enquanto Santiago entrou no roteiro pelo motivo óbvio, Mendoza surgiu a princípio como passeio de fim de semana, mas aos poucos foi recebendo a atenção merecida. Há alguns meses, estava tão empolgada com tudo o que havia descoberto sobre a região, que até deixei o deserto chileno de lado por um tempo. Infelizmente, o que mais me atraiu na nossa passagem pela Argentina teve que ficar de lado: a trilha de três dias até o acampamento base do Aconcágua, chamado Plaza Francia, só poderia ser feita a partir de meados de novembro, tarde demais para nosso cronograma. Minha decepção na hora foi enorme, mas são coisas que a gente tem que saber lidar na hora de planejar uma viagem: nem sempre dá pra fazer tudo de uma vez só. Como consolo, decidimos fazer um trekking de dois dias pela região da Alta Montaña, de onde iremos, como consolo, apenas avistar o Aconcágua. Ao invés de duas noites acampadas em barracas na montanha, um pernoite em (aparentemente) confortáveis chalés . Pensando bem, não me parece má idéia.

Mas não pensem que andei todos esses anos apenas sonhando em partir. Meus trinta dias de férias são sagrados e nunca desperdiçados. Viajei pelo nordeste brasileiro - Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte - pela Argentina - Buenos Aires e Bariloche - e fiz "aquele" mochilão simbólico, quase um rito de passagem, pela Europa - Itália, República Tcheca, Alemanha, França e Espanha. Não sei bem por que deixei de relatar minhas andanças pelo mundo nesses últimos anos, nem mesmo por que resolvi voltar a escrever agora. Mas uma coisa é certa: estou sentindo a mesma ansiedade e a mesma alegria de quatro anos atrás, quando botei, pela primeira vez, um mochilão nas costas e saí por aí. E me deu uma vontade danada de dividir com todo mundo minha nova aventura.